segunda-feira, 7 de março de 2011

Após a perda, o desafio de “sobreviver”

Por Romualdo Cruz Filho
(A Tribuna de Piracicaba, em 06/03/2011)



18 de outubro de 2010. Angelo Tadeu Giusti está trabalhando na Caterpillar quando recebe um telefonema inesperado. “Sua filha Jéssica foi assassinada.” A notícia chega como uma bala e atinge seu coração. “Eu podia morrer naquele momento, porque foi isso que eu senti: desejo de morte. Mas dei um grito de desespero bem alto. Logo em seguida, fui tomado pela vertigem e estava próximo a desmaiar”, revelou o pai da jovem estudante Jéssica Philipp Giusti, 21, morta a pauladas por volta das 6 horas, quando chegava a Três Rios, Rio de Janeiro, cidade onde cursava a Faculdade de Direito.

“Quando me dei conta da dimensão, para a minha vida do que havia acontecido, um novo sentimento me abateu: o pânico. Faz cinco meses que perdi minha filha e até agora me vejo inconformado, para não dizer transtornado com o fato. Estou ainda na fase da não-aceitação, em que se misturam sentimentos de vingança com angústia. Conforme o tempo passa, me sinto mais abandonado pelas autoridades, porque o crime hediondo ainda não foi desvendado e tudo leva a crer que a impunidade não me permitirá saber oficialmente quais foram as pessoas que tiraram a vida de Jéssica.”

Tadeu Giusti conta que somente uma força maior foi capaz de evitar que ele perdesse a cabeça e partisse para a agressão, tentando fazer justiça com as próprias mãos. “Passei 30 dias fora da realidade. Ainda não tenho vontade de trabalhar. Acho que, apesar de tudo, tenho suportado bem. A avó da menina, por exemplo, está próxima de morrer, devido a um enfisema pulmonar decorrente do abandono dos remédios que tomava. Ela piora a olhos vistos desde a notícia da morte da neta.”

O pai da jovem sabe que há pouco a fazer, além de cobrar das autoridades e aguardar que o tempo o tranquilize seus sentimentos. Ele tem buscado na filosofia forças para suavizar sua dor. “Mas percebo que a situação só piora. Se o crime tivesse sido desvendado e alguém tivesse ido para a cadeia, tudo estaria melhor. Mas não. A situação se arrasta como uma bomba e, conforme rola, se potencializa, até o momento da explosão. Percebo que, depois da tragédia, me tornei um homem, de fato, porque tenho um motivo para morrer”, revelou, em um momento de total despojamento.

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28 de junho de 1984. Ocimar Martins, 22, estava feliz da vida, porque pilotaria um avião Paulistinha até o Rio de Janeiro. A viagem seria feita com dois amigos que trabalhavam com ele e foi encomendada pela Dedini. A missão era levar um documento da empresa. Tudo corria com naturalidade, como nas viagens anteriores que realizou durante o curso de aviador. Ao se aproximar do aeroporto Galeão, foi informado de que não poderia pousar, pelo fato de o clima estar muito nublado, talvez. A orientação era ir até Jacarepaguá. No novo percurso, algo de estranho aconteceu.

O empresário Jorge Martins era vereador na ocasião e estava em plena atividade quando recebeu um telefonema: “O avião pilotado pelo seu filho desapareceu.” Imediatamente ele entrou em contato com a Mesa Diretora do Legislativo local e recebeu todo o apoio. Adílson Maluf entrou em contato com o governador Leonel Brizola, que era seu amigo. E Brizola acionou o Corpo de Bombeiros, exigindo que fossem intensificadas as buscas.
“Não se sabia exatamente se o avião caíra na serra ou no mar. Mas foram 180 horas de busca e nada de encontrar a nave. Percebemos logo que se tratava de uma fatalidade, sem solução. Como acredito no espiritismo, fui conversar com a vidente Neila Alckmin e com Chico Xavier.” Ambos confirmaram a mesma cena. “O tempo estava ruim, o avião bateu com as asas em alguma pedra muito grande, se desgovernou e caiu no mar.”

Martins conta que foi muitas vezes para o Rio de Janeiro ver o mar, como quem vai ao encontro do filho. Sua formação religiosa o levou a aceitar o fato com certo conforto: “Não sei se seria melhor ver meu filho sendo enterrado em um cemitério. Pelo menos assim fiquei com uma imagem bonita em minha memória, como se ele ainda estivesse vivo e sempre presente. Às vezes, me pego chorando ao me deparar com algum objeto dele, guardado na gaveta. Com a minha esposa, acontece a mesma coisa. No fundo do meu coração eu sei que estamos aqui só de passagem, pois o corpo é finito, mas o espírito é infinito”, filosofa o pai saudoso de Ocimar.

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A psicóloga e pedagoga Denise Malafaia explica que trabalhar com o sentimento de perda não é nada fácil, “porque não fomos educados para conviver com a ideia de morte”. Segundo ela, há várias reações quando as pessoas recebem a notícia de que um ente querido se foi, seja por atropelamento, por assassinato, ou por qualquer outra forma de morte violenta, como ocorreu com o casal Claudio Meneghetti e Lilian Simioni, assassinados após serem sequestrados em sua casa, na Vila Rezende – onde também a empregada Suzana Felipe foi morta. Eles deixaram uma filha, Laís, que também havia perdido o irmão, com apenas novo anos, e a avó, um dia antes dos pais serem sequestrados.

Há aqueles que reagem como se tivessem sido abandonados por Deus e passam a não acreditar mais em nada. Outros se apegam demais ao divino. Em alguns casos, as pessoas partem para a droga ou álcool e só se recuperam com ajuda médica. É o instinto da destruição operando. Outros se fecham em si mesmos e passam a sofre da síndrome do pânico. Sentem medo de tudo, como se estivessem sempre sendo perseguidos. Segundo Denise, há ainda os que partem para o esoterismo. Em outra extremidade, há os que passam a acreditar que uma pedra banhada na lua cheia pode purificar sua casa. “São todo caminhos para evitar o sofrimento. São, cada qual em sua medida, mecanismos de defesa.”

O instinto de vingança, no entender da psicóloga, também é muito presente. “Cada um vai elaborar a perda de uma forma e terá seu tempo para se recuperar ou não. Nem todos conseguem administrar a situação e precisam sim da ajuda de especialistas, porque senão acabam envolvendo toda a família em suas emoções perturbadas. Porque a depressão pode levar à morte. E o desequilíbrio por depressão de um integrante da família pode levar a um desajuste emocional coletivo. Mas o tempo desse processo de elaboração do luto e aceitação da morte depende do quociente emocional de cada um”, conclui a especialista.

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